Pessoas com deficiência costumam enfrentar um desafio duplo. Sofrem com as limitações de sua condição e depois, muitas vezes, com o preconceito e a invisibilidade que a sociedade lhes impõe.
Há pouco mais de onze anos, em Fazenda Rio Grande, na região metropolitana de Curitiba, um grupo de pessoas começou a se movimentar para alterar essa realidade por meio de um poderoso instrumento: a cultura. Em comum, elas acreditavam que a participação de pessoas com deficiência na sociedade não é um privilégio, mas um direito. E para garantir a inclusão desses cidadãos, arregaçaram as mangas.
Oficinas de teatro foram montadas para atender aos alunos da APAE local, abrindo espaço para que eles mostrassem as suas potencialidades aos familiares e à comunidade. A assistente social Marcia Miranda, uma das idealizadoras do Coletivo Inclusão, lembra que as oficinas de teatro em pouco tempo transformaram a rotina na APAE de Fazenda Rio Grande. “O dia mais esperado da semana passou a ser a quinta-feira da aula de teatro. Os familiares ficavam emocionados ao testemunhar a transformação dos alunos. Aos poucos, os profissionais que trabalhavam com eles passaram a relatar a melhora terapêutica e de aprendizado”, conta Marcia.
A iniciativa gerou duas necessidades imediatas: buscar qualificação para a equipe – por meio de cursos e treinamentos mais aprofundados ao público atendido – e conseguir fontes de recursos para continuar e ampliar os atendimentos.
O primeiro projeto aprovado pela Lei Rouanet de Incentivo à Cultura do Governo Federal consta do Diário Oficial da União de 27 de novembro de 2013. A semente havia germinado e começava a construção de uma rede potente de apoiadores formada por indivíduos e empresas comprometidas com a inclusão das pessoas com deficiência. Em junho de 2017 o Coletivo Inclusão foi constituído legalmente sob forma de associação sem fins lucrativos.
As oficinas cresceram em variedade de temáticas e locais de atendimento. Às aulas de teatro somaram-se ballet, pintura, coral, musicalização e a introdução do esporte com a capoeira, o judô e um pioneiro projeto de equoterapia. Nas APAES de Curitiba, São José dos Pinhais, Mandirituba, Fazenda Rio Grande, Paranaguá (PR), Passo Fundo (RS), Capivari de Baixo (SC) e agora Leme (SP) são atendidas 1500 pessoas por semana atualmente.
O Centro de Referência em Equoterapia funciona com a parceria do Jockey Club de Fazenda Rio Grande e com o patrocínio da iniciativa privada e atende 80 pessoas semanalmente. “Essa atividade exige a participação do corpo inteiro. Por isso, contribui para a força muscular, o relaxamento, a coordenação motora e o equilíbrio. Ela usa o movimento do cavalo para fazer a terapia e a partir dessa vivência com o animal e a equipe multidisciplinar promove um desenvolvimento global na pessoa que está fazendo a terapia. O ganho é observado no âmbito escolar, da família e em outros ambientes a qual está inserida”, afirma Caroline Rossi, responsável pelo projeto de Equoterapia e uma das gestoras do Coletivo Inclusão.
Paradesporto
Em agosto de 2023, o Coletivo Inclusão deu início a uma nova frente de atuação: o Basquete em Cadeira de Rodas. O projeto é realizado em parceria com a Secretaria de Esporte do município de Fazenda Rio Grande, que cede o Ginásio Poliesportivo Veneza para as aulas, um funcionário responsável pela coordenação técnica e as cadeiras de rodas. Jhon Henrique de Paula Oliveira, jovem atleta paraplégico, é responsável por conduzir as atividades e dar a inspiração necessária aos alunos para os alunos nas duas aulas semanais. A intenção é formar um time que represente o município de Fazenda Rio Grande em competições.
Com o ingresso no Coletivo Inclusão no programa Proesporte – Lei de Incentivo ao Esporte do Governo do Estado, outras modalidades serão oferecidas em breve para jovens com deficiência.
Reencantando a vida
Infelizmente, deficiência e vulnerabilidade social muitas vezes caminham juntas. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 80% das pessoas com deficiência vivem em regiões empobrecidas do planeta. Desta forma, o Coletivo Inclusão também oferece atividades assistenciais de saúde mental e de geração de renda por meio do projeto Reencantando a Vida para as mães atípicas. “Buscamos proporcionar para as famílias, especialmente para as mães que muitas vezes são as responsáveis pela família, que elas tenham um reencantamento com a vida. Por isso o nome do projeto é ‘Reencantando a Vida’. Queremos levar esse apoio emocional e também a descoberta dos seus próprios talentos. Essas pessoas ficam mais fortes para uma vida mais equilibrada e ao mesmo tempo se tornam mais autônomas e empoderadas”, afirma o assistente social André Rigoni Caminski, outro gestor do Coletivo.
Rede colaborativa
O Coletivo Inclusão trabalha em estreita colaboração com organizações parceiras que têm ideais semelhantes, seja a partir de mecanismos de renúncia fiscal, seja pelo apoio direto de pessoas físicas e jurídicas. Também é beneficiário do Programa Nota Paraná do governo do Estado, no qual as pessoas físicas doam notas fiscais sem CPF para instituições sociais. A rede de apoiadores têm viabilizado o crescimento sustentável dos atendimentos e a formulação de novos projetos, como o Festival da Inclusão, cuja terceira edição foi realizada em maio de 2024 com enorme sucesso.
Atualmente, o Coletivo Inclusão atua em treze instituições no estado do Paraná, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e de São Paulo com o suporte de cerca de 50 colaboradores. A organização fechou 2023 com 40 mil atendimentos no ano.
Para Ana Paula Pelanda, diretora do Grupo Pelanda, patrocinadora do Centro de Referência em Equoterapia e do projeto Reencantando a Vida, a parceria de mais de três anos com o Coletivo Inclusão estabeleceu uma relação de confiança e admiração. “Nós ficamos encantados com a maneira única com que o Coletivo trata a criança com deficiência, isso toca muito o nosso coração e só fez fortalecer a nossa parceria. É uma instituição séria que visa o bem-estar das crianças carentes e com deficiência. Nós confiamos muito no trabalho deles’, afirma.
Empregabilidade
Mais do que números, o Coletivo Inclusão promove uma verdadeira revolução onde atua, mudando vidas e expectativas. Um exemplo é Luiz Fernando Glovatiski Pereira Lacovicz, jovem com deficiência intelectual moderada. Após participar de diversas atividades, ele foi convidado a colaborar como repórter remunerado do Coletivo. Luiz já faz planos para ser jornalista, destacando que a inclusão transformou sua vida.
A presença de Luiz como colaborador é a prova da capacidade de superação e força de vontade de pessoas com deficiência dispostas a entrar no mercado de trabalho. Em 2024, o Coletivo Inclusão criou um grupo de trabalho exclusivo para levar conscientização e formação para empresas que queiram incluir pessoas com deficiência em seus quadros.
Saiba mais
coletivoinclusao.org.br
@coletivoinclusao
facebook.com/coletivoinclusao






