O que é a Síndrome do X Frágil?

A Síndrome do X Frágil – SXF (CID11 LD55; ORPHA 908) é uma condição genética e hereditária que afeta ambos os sexos, ainda pouco conhecida e difundida, e é a principal causa de deficiência intelectual (DI) herdada e de autismo sindrômico. A pessoa com SXF apresenta um conjunto de sintomas relacionados às DIs, além de dificuldades emocionais, comportamentais e atrasos na fala.

Essa condição é causada por uma mutação do gene FMR1 no cromossomo X. A mutação inibe ou reduz a produção da proteína FMRP (fragile X messenger ribonucleoprotein) essencial para o desenvolvimento do sistema nervoso e de várias funções cerebrais. Essa expansão causa uma fragilidade no braço longo do cromossomo X, o que dá o nome à Síndrome.

A SXF afeta homens e mulheres, mas as mulheres geralmente são menos afetadas, pois há um gene FMR1 normal no segundo cromossomo X que, quando ativo, gera níveis normais de FMRP. Por isso, apenas 50-71% delas com a mutação completa apresentam déficit cognitivo significativo. O diagnóstico precoce aliado ao estímulo e tratamento adequados, têm grande influência no prognóstico destas pessoas. A expectativa de vida dos indivíduos com a SXF é normal.

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A Síndrome do X Frágil e o autismo sindrômico

De acordo com o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), aproximadamente 46% dos homens e 16% das mulheres com Síndrome do X Frágil tem o autismo sindrômico associado. Apesar da síndrome ter características autísticas, como as estereotipias, ecolalia, entre outros, nem sempre essas características indicam necessariamente o diagnóstico do autismo sindrômico, principalmente quando o indivíduo é sociável e tem interesse em outras pessoas. 

O transtorno do espectro do autismo sindrômico (TEA) é uma condição avaliada clinicamente por meio de instrumentos específicos, como uma lista de verificação de comportamentos. Apesar de poder ter origem genética, nem sempre terá essa causa.

Já a Síndrome do X Frágil é diagnosticada por meio do exame de DNA específico e sua causa sempre será genética, além de ser hereditária (transmitida entre as gerações).

Quando o TEA é associado a um ou mais sinais morfológicos que indiquem a necessidade de investigação de alguma síndrome, ele é chamado de autismo sindrômico, pois ele é causado justamente por essa condição de base. É isso que acontece em grande parte das pessoas com a Síndrome do X Frágil.

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Como reconhecer?

As caraterísticas dos indivíduos com a Síndrome do X Frágil são variáveis e existem diferentes graus de comprometimento, dificultando a definição do diagnóstico clínico. Portanto, para conseguir o diagnóstico correto é necessária a realização de exame genético e conhecer o histórico familiar. Em muitos casos os pacientes podem receber outros diagnósticos como: autismo sindrômico, TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade), entre outros.

IMPORTANTE

Nem todas as pessoas com SXF terão todas esses sinais e sintomas. O diagnóstico deve ser feito por profissionais especializados, com base na avaliação clínica e genética.

  • Face alongada
  • Mandíbula proeminente
  • Orelhas grandes e em forma de abano
  • Macroorquidia (testículos de tamanho maior que o normal)
  • Hiperextensibilidade articular (articulações mais flexíveis que o normal)
  • Hipotonia (baixo tõnus muscular)
  • Palato (céu da boca) alto
  • Pele macia
  • Estrabismo
  • Deficiência intelectual ou dificuldades no aprendizado
  • Déficit de atenção com ou sem hiperatividade
  • Atraso para começar a caminhar/engatinhar
  • Atraso na fala
  • Problemas de integração sensorial
  • Deficiência intelectual, mesmo que sem diagnóstico preciso
  • Dificuldades escolares
  • Transtorno do espectro autista
  • Problemas de fertilidade
  • Menopausa precoce
  • Quedas frequentes, descoordenação motora
  • Diagnóstico de Parkinson ou Alzheimer
  • Fala repetitiva e fora de contexto
  • Comportamento imitativo
  • Bom humor e simpatia
  • Evitar contato visual e/ou físico
  • Estereotipias
  • Morder as mãos (a ponto de causar ferimentos)
  • Angústia diante de novas situações ou com elementos desconhecidos
  • Baixa tolerância à frustração
  • Pouca capacidade de espera
  • Impulsividade
  • Comportamento agressivo em situações de muito estímulo
  • Desconforto com mudanças inesperadas
  • Dificuldade de socialização
  • Gostar de seguir rotinas
  • Distúrbios do sono
  • Timidez
  • Dificuldade nas relações sociais
  • Impulsividade
  • Ansiedade
  • Fobias (medos injustificados)
  • Dificuldade emocional de falar em alguns contextos sociais
  • Baixa autoestima

Pré-Mutação:

Pessoas com a pré-mutação do X frágil não têm Síndrome do X Frágil, mas podem ter outros transtornos associados à condição. Algumas pessoas pré-mutadas têm sintomas perceptíveis e outras não, por isso é muito importante realizar a testagem quando um familiar é diagnosticado.
A pré-mutação é mais prevalente na população do que a Síndrome do X Frágil. Pesquisas recentes mostram que a pré-mutação pode afetar cerca de 1 em cada 150 a 200 mulheres e 1 em cada 300 a 470 homens.

Sintomas comuns naPré-Mutação:

  • Dificuldades escolares (Principalmente em português e matemática)
  • Hipotireoidismo
  • Dores de cabeça frequentes
  • Hipertensão
  • Cansaço sem motivo aparente
  • Problemas ósseos
  • Dificuldade para dormir
  • Descoordenação motora
  • Tremores
  • Dificuldade para engravidar
  • Fibromialgia
  • Menopausa precoce (antes dos 40 anos)
  • Ciclos menstruais irregulares
  • Dormência em membros
  • Alterações de humor
  • Problemas cardíacos

Algumas condições associadas ao X Frágil que podem ocorrer na Pré-Mutação:

Síndrome de Falência Ovariana Primária (FXPOI):

Condição que afeta mulheres pré-mutadas e causa redução da função dos ovários. Pode causar níveis elevados do hormônio folículo estimulante (FSH), ciclos menstruais irregulares, menopausa precoce (antes dos 40 anos) e infertilidade. Aproximadamente 20% das mulheres pré-mutadas desenvolverão FXPOI durante sua vida reprodutiva, em comparação com apenas 1% da população em geral. Existe variabilidade na gravidade dos sintomas, o médico ginecologista é o profissional adequado para o acompanhamento desta condição. O acompanhamento com o endocrinologista também pode auxiliar.

Síndrome de Tremor/Ataxia Associada ao X Frágil (FXTAS):

Caracterizada por disfunções motoras e na capacidade de raciocínio, tem início tardio, sendo mais frequente após os cinquenta anos com piora do quadro com o avanço da idade. É mais comum e severa em homens do que em mulheres e seu diagnóstico é realizado pela ressonância magnética do cérebro (avaliação de danos no cerebelo) associada ao exame molecular do gene FMR1. Seus sintomas envolvem tremor ao tentar realizar movimentos voluntários ou parkinsonismo e problemas de coordenação e equilíbrio, podendo evoluir com formigamento, dormência, fraqueza e dor muscular em membros inferiores, descontrole da bexiga e intestino, perda de memória de curto prazo e incapacidade para planejar e executar ações, resolver problemas, controlar impulsos, entre outras questões relacionadas à função cognitiva. 

FXAND

Distúrbios Neuropsiquiátricos Associados ao X Frágil (FXAND) englobam alterações como ansiedade, depressão, dor crônica, distúrbios do sono e doenças autoimunes em portadores da pré mutação do gene FMR1. Identificar a pré-mutação permite um tratamento mais eficaz do estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e comorbidades como enxaqueca, hipertensão e disfunções da tireoide.

Genética:

A Síndrome do X Frágil tem origem genética e é hereditária. É causada por uma mutação no gene FMR1 (fragile x messenger ribonucleoprotein 1), localizado na região Xq27.3 do cromossomo X. Este gene é responsável pela produção da proteína FMRP (fragile x messenger ribonucleoprotein), que é fundamental no desenvolvimento de conexões importantes do sistema nervoso.

A mutação presente na Síndrome do X Frágil é do tipo expansão, na qual ocorre o aumento de cópias de Citosina-Guanina-Guanina (CGG) no gene FMR1, ou seja, a quantidade de DNA está aumentada neste local do gene FMR1.

Em pessoas que não apresentam a SXF, o número de repetições de CGG varia de 5 a 44, com pouca ou nenhuma variação quando transmitida aos filhos. Já nas pessoas afetadas pela Síndrome, o segmento CGG se repete mais de 200 vezes. Isto provoca o “desligamento” do gene FMR1, o que impede a produção da proteína FMRP. A perda desta proteína interfere no desenvolvimento cerebral do feto e nas funções do sistema nervoso, originando as características da Síndrome do X Frágil.

Homens e mulheres com repetições do segmento de CGG entre 55 e 200 são chamados de pré-mutados. Nestas pessoas, o gene alterado está ativo, e elas apresentam quadro clínico variável, desde nenhum sintoma, até algumas condições de saúde que podem ser associadas. À medida que vai sendo transmitida através das gerações, a pré-mutação tende a se expandir para a mutação completa e, nesta etapa, o gene deixa de funcionar.

As pessoas com mutação completa do sexo masculino geralmente são afetadas pela síndrome em sua forma clássica, enquanto as do sexo feminino poderão ou não apresentar o quadro clínico, pois como as mulheres possuem 2 cromossomos X, pode ocorrer o silenciamento do cromossomo afetado. O outro cromossomo X, não afetado, tem seu gene FMR1 funcional, o que pode compensar a falta da proteína do gene mutado, podendo ou não ser suficiente para que os sintomas não se manifestem. Portanto, nas meninas a SXF tende a ser menos severa do que nos meninos.

Transmissão:

As mulheres portadoras da pré-mutação no gene FMR1, localizado em um dos cromossomos X, têm 50% de chance de transmitir essa alteração genética a cada gestação, independentemente do sexo do bebê. A mutação pode ser passada na forma de pré-mutação ou sofrer expansão para a mutação completa. Filhos ou filhas que herdarem o cromossomo alterado podem, portanto, apresentar desde a pré-mutação até a Síndrome do X Frágil em sua forma clássica. 

Mulheres que têm a mutação completa em um dos seus cromossomos X também têm 50% de chance de passar essa mutação para cada filho ou filha. Se o filho ou a filha receber essa mutação completa, pode desenvolver a Síndrome do X Frágil. Nos meninos, a síndrome costuma ser mais severa, porque eles têm apenas um cromossomo X. Nas meninas, a síndrome pode se manifestar de forma mais leve, porque elas têm dois cromossomos X, e o outro cromossomo pode ajudar a compensar a falta da proteína FMRP, importante para o desenvolvimento. 

Homens com pré-mutação transmitem o gene FMR1 alterado exclusivamente para as filhas – nunca para os filhos — já que transmitem o cromossomo Y para os meninos. Contudo, diferentemente da transmissão materna, a pré-mutação transmitida, geralmente, pelo pai não se expande para mutação completa, permanecendo estável.

No caso de homens com mutação completa, observa-se um fenômeno raro: apesar de carregarem a mutação completa, eles, comumente, transmitem o gene com pré-mutação para suas filhas, e não a mutação completa. Isso ocorre devido à regressão da mutação durante a espermatogênese, o que faz com que apenas alelos na faixa de pré-mutação sejam encontrados nos espermatozoides.

Diagnóstico:

O diagnóstico correto da SXF é muito importante, uma vez que seus sintomas se assemelham aos de outras condições que envolvem o desenvolvimento intelectual.
O resultado do exame é obtido através da análise do DNA e deve ser realizado quando as características físicas e comportamentais já mencionadas são combinadas, acompanhadas de deficiência intelectual, se houver histórico familiar sugestivo. O exame também é indicado para mulheres que apresentam menopausa precoce, dificuldades para engravidar e/ou abortos recorrentes e pessoas acima de 50 anos com ataxia e histórico familiar sugestivo.
Atualmente, existem duas técnicas para a obtenção do diagnóstico:

PCR (Reação em cadeia da polimerase) para X Frágil

Avalia o número de cópias CGG no gene FMR1 (tamanho da expansão). Não consegue identificar o estado de metilação (grau de “desligamento”) do gene. Em alguns casos, pode detectar mosaicismo (expansões diferentes em algumas células, podendo levar a um quadro clínico mais leve). É o método mais rápido e sensível.

Southern Blotting

Avalia tanto o número de repetições quanto o estado de metilação. É ideal para confirmação de casos de mosaicismo. Pouco acessível no Brasil, é um método mais detalhado, porém mais complexo e demorado.

Devido às características específicas da mutação que causa a Síndrome do X Frágil, alguns exames de avaliação mais extensa do DNA não são indicados para o diagnóstico.

O exame cariótipo NÃO é mais recomendado para o diagnóstico da Síndrome do X Frágil, uma vez que analisa apenas a estrutura cromossômica e não o conteúdo genético, tendo altos índices de falso positivo e falso negativo ao se avaliar a fragilidade no braço longo do cromossomo X.

O exame Array por exemplo, identifica grandes deleções ou duplicações genéticas, mas não é eficaz para detectar a expansão de repetições de trinucleotídeos (CGG) no gene FMR1, não tendo a resolução necessária para identificar essa alteração.

Já o Exoma (analisa a parte codificadora do DNA) e Genoma (analisa todo o DNA), embora possam detectar muitas mutações genéticas, pode não detectar essa mutação específica com precisão. Além disso, pelo alto volume de dados gerados por essas técnicas, o processo de identificação é mais complexo e menos focado.

Os painéis NGS (Sequenciamento de Nova Geração) têm uma tecnologia avançada, mas que pode não ser sensível o suficiente para detectar a expansão específica, especialmente em casos de mosaicismo ou quando a expansão é grande. É um exame mais indicado para casos de mutações pontuais ou variantes em genes específicos.

Usuários de Plano de Saúde

A Análise Molecular para a Síndrome do X Frágil faz parte do Rol de Procedimentos da ANS, uma listagem dos procedimentos de saúde cuja cobertura é garantida. Mais informações, clique aqui!

Quem não tem plano de saúde

O Instituto Buko Kaesemodel poderá auxiliar na obtenção do diagnóstico, oferecendo subsídios para custeio parcial ou integral para a realização do exame PCR, conforme resultado da análise socioeconômica das famílias interessadas, bem como a capacidade econômica do Instituto à época.

Prevenção:

A Síndrome do X Frágil pode ser evitada com a ajuda do aconselhamento genético, especialmente quando há casos da síndrome na família. Com um exame genético, é possível saber se o casal carrega a alteração no gene FMR1 que causa a síndrome.
Quando a mutação ou pré-mutação é identificada, uma das opções é fazer fertilização in vitro com teste genético pré-implantacional (PGT-M). Esse teste permite escolher embriões sem a alteração genética antes da gravidez, evitando que a síndrome seja passada para os filhos.
Outra opção é a adoção, caso o casal prefira não correr o risco de transmitir a condição.
Por isso, é muito importante descobrir o diagnóstico correto o quanto antes, principalmente quando é o primeiro caso na família. Assim, outros familiares também podem ser avaliados e receber orientações que ajudam a prevenir novos casos no futuro.

Tratamento:

Após o diagnóstico da síndrome, é importante iniciar imediatamente o tratamento, que não leva à cura, porém ajuda a melhorar a qualidade de vida da pessoa com essa condição e sua família.
Há diversas estratégias educacionais e comportamentais que podem contribuir significativamente, além de terapias como Terapia Ocupacional (TO), Fisioterapia e Fonoaudiologia. Acompanhamentos pedagógico e psicológico tendem a favorecer o desempenho escolar.
Também existe uma variedade de medicamentos disponíveis para ajudar no controle dos sintomas como ansiedade, agressividade e depressão, que devem ser avaliados pelo médico que acompanha cada caso.

Indicações de terapias adequadas para tratamento daSXF::

  • Fonoaudiologia
  • Terapia Ocupacional
  • Psicopedagogia
  • Musicoterapia
  • Fisioterapia/atividades físicas
  • Equoterapia
  • Acompanhamento pedagógico
  • Uso de tecnologias assistivas, como dispositivos para comunicação alternativa
  • Acompanhamento hormonal na adolescência

O aconselhamento genético também se faz fundamental para identificação da mutação ou prémutação em outros membros da família, para realizar os tratamentos adequados para os diferentes quadros clínicos possíveis.

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